Ganhei uma vitrola do meu sogro, o Walter. Ela estava prestes a ser descartada em meio a uma faxina monumental, daquelas que só acontecem três ou quatro vezes na vida. Artigos de toda sorte eram jogados fora por serem inúteis para o nosso momento histórico.Entre outras coisas, foi descartado:
Uma pilha de fitas de vídeo VHS emboloradas com o tempo; vários volumes de enciclopédias que antes serviram de pesquisas para tantos trabalhos escolares mas que agora tornaram-se enfadanhos e desatualizados; coleções de revistas das décadas de 70 e 80; um mimeógrafo; um projetor de eslaides e outras inovações do passado.
Eu salvei uma vitrola e uma quantidade de vinis tão grande que deu para encher uma caçamba de caminhonete. A maior parte tentei vender para os dois sebos da minha cidade, tentativa que logrou infrutífera, já que eles têm muitos vinis e pouca saída.
Para mim, salvei uma pilha razoável o bastante para causar desavença com a esposa no futuro, quando for eu o guardião de badulaques.
Eis alguns dos nomes que nutrem a gorda pilha pretérita:
- Secos e Molhados
- Chico Buarque
- Paulinho da viola
- Simon and Garfunkel
- Carlos Lyra
- Tom Jobim
- Bethânia
- Os grandes Festivais
- Taiguara
- Mutantes
- Dois na Bossa - Elis e Jair Rodrigues
- Geraldo Vandré
- Quinteto Armorial
- Elvis
- Ivan Lins (ainda barbudo)
Convenhamos, não dá para jogar no lixo tal acervo cultural. Seria um pecado digno de todos os suplícios da Idade Média, com direito a fogueira de inquisição.
Terminada a limpeza da insistente poeira dos tempos da ditadura, posicionei a vitrola com agulha nova (sim, ainda vende!), pronta para fazer cantar meus ídolos da música brasileira e mundial.

Rodei a primeira faixa do disco do Secos e Molhados.
Decepção.
Meu ouvido estava desacostumado com o som emaranhado e arenoso do vinil. Fazia mais de 10 anos que não ouvia um disco na vitrola (e olha que era assíduo deles na infância e ínício da adolescência).
É o legado da modernização. Ela roubou meu romantismo pelo vinil. Fiquei tão triste.
Sei que existem defensores ferrenhos do vinil ainda hoje; descobri que eu não sou um deles.
O CD é melhor, uma tecnologia superior. Isso não me impede de tocar meus discos na vitrola, ainda faço isso quase todos os dias, mas não sem pensar: "ah se eu tivesse esses discos em Cd..."



4 comentários
é alguma intriga será criada com a esposa, com certeza. mas é bom aproveitar esses momentos de ouvir discos. Eu lembro que ouvia da xuxa, angélica e balão mágico. Comprei um da Angélica por nove cruzeiros no Carrefour, que alegria!!!! Que velha estou ficando...
04 Maio, 2008Viajar no tempo é muito legal, mas com tecnologia atual melhor, penso que tudo evolui e não sou conservador mesmo, gostaria de ver os sonhos da ficção aqui e agora. Bem, mas com relação às músicas de ontem, ou melhor, as letras, bem que o presente poderia ser como o passado. Não sei se faltam jovens que pensem hoje ou os que pensam não escrevem. Velocidade talvez seja o grande vilão, pouco tempo existe e o básico sobrepõe ao profundo e ao reflexivo e meditativo. Quero conteúdo riscado e fanho tocado no lugar dos blá blá blá.... chek chek limpo e suave. Então peço.... ACORDEM MENINOS DO TEMPO QUE SE CHAMA HOJE.
05 Maio, 2008Admiro os que continuam vendo, ou melhor,ouvindo o som das antigas. Embora tbém não seja o meu interesse, costumo apreciar quem sabe valorizar o que tem de belo na construção da história (sem contudo ficar preso à ela). Valeu a tentaiva, Thiago!
05 Maio, 2008Sei que os MP3, MP4 e outros formatos de som popularizou a música e os acervos. Mas também profanou.
22 Janeiro, 2009Me lembro de aguardar com expectativa o lançamendo de um disco de algum artista que eu gostava. Era uma delícia. Abrir o álbum, acompanhar a letra, era prazeroso, divertido. Mas o mais triste para mim é a extinção do Lado B. Eu costumava ouvir o Lado A; local onde moravam os singles, sucesso das rádios; me preparando como que ritualisticamente para ouvir o lado B. Foi assim que descobri alguns tesouros: o lado B de vários discos do RAUL SEIXAS e principalmente o Lado B do ABBEY ROAD, na minha opinião, o legado de Paul McCartney para a Humanidade
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