BULA

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Escrevi este texto em 2004. Ele estava guardado em meu caderno de escrever desde então, com exceção de uma vez em que foi dado de presente.
É uma homenagem e uma brincadeira que fiz a um grande Compositor: Geraldo Azevedo.

Se você quiser, pode acompanhar a "Bula" ouvindo uma das mais belas composições de Geraldo Azevedo, "Dia Branco":



Substância Curativa: Cd do Geraldo Azevedo ao Vivo.

Solução Auditiva.

Uso pediátrico e adulto.

Composição – Cada faixa musical contém:
- Genialidade de pernambucano......................400 mg
- Amor................................................................300 mg
- Palavras de aconchego...................................30 mg
- Inocência..........................................................250 mg
- Lirismo............................................................400 mg
- Guerra Interior.............................................99 mg
- Beleza intangível...........................................500 mg
- Ódio...............................................................220 mg
- Desapego a coisas do cotidiano....................642 mg
- Brincadeiras de criança................................89 mg
- Brisa do Mar.................................................271 mg

Informações ao paciente:
Geraldo Azevedo é um antidepressivo múltiplo que contém substâncias de grande eficácia e ação imediata contra os sintomas de emburrecimento crônico, imaginação infértil, perda da alma eterna de criança, dificuldade de confecção de metáforas e falta de tempo para ver pores-do-sol.

Geraldo Azevedo alivia a saudade de barulho de onda do mar e a saudade de ouvir os batimentos cardíacos da pessoa amada.

Não deve ser usado em momentos de inveja, mesquinhez e mediocridade.

Não utilizar este produto com assiduidade exagerada, já que pode causar sensibilidade excessiva aos possíveis idílios que se apresentam na vida.

Caso surjam reações como: Lágrimas peregrinantes pela face, ou arrepios súbitos pelo corpo, aconselha-se suspender a ministração por uma ou duas horas.

Durante o tratamento poderá ocorrer atração anormal ao brilho das estrelas matutinas, ao canto dos passarinhos e ânsia por beijos assassinos.

Aconselha-se administrar o produto concomitantemente com cafunés e abraços apertados, por aumentar a eficácia do medicamento.

Em pacientes idosos é recomendado o uso sob orientação médica.

Contra-indicações:
O produto é contra-indicado em pacientes com conhecida hipersensibilidade à metáforas envolvendo estrelas, brisa do mar e rouxinóis.

Posologia:
Adultos.....................................................1 a 2 músicas a cada 4 horas
Adultos com alma de criança................... 6 a 7 músicas a cada hora.

Americanizados

sábado, 10 de maio de 2008


Meus amigos só querem ver filmes produzidos nos Estados Unidos. Quando proponho ver um filme brazuca, um latino ou um Europeu, torcem logo o nariz, prevendo o que seria, em suas imaginações, duas horas de martírio cinematográfico.
Eles não percebem que foram adestrados para ingerirem apenas um tipo de comida, como os cães.

Mal sabem eles que, quando o cão prova o osso repleto da carne suculenta, dificilmente volta para a ração com a felicidade de outrora.

Foram ensinados a irem ao cinema somente para divertimento fútil. Alguns dizem: "quando vou ao cinema não quero pensar, bastam as mazelas do trabalho". É triste perceber que, para estas pessoas, pensar não é divertido. Elas estão muito enganadas!

O meu filme predileto é uma produção Italiana chamada "O carteiro e o Poeta", com roteiro adaptado do livro do escritor Chileno Antônio Skarmeta. Conta a estória de Mario, um carteiro que, ao fazer amizade com o grande poeta Pablo Neruda (então exilado político), vira seu carteiro particular e acredita que ele pode se tornar seu cúmplice para conquistar o coração de uma donzela. Descobre, assim, a poesia que sempre existiu em si. Só pela fotografia o filme já vale muito, pois foi filmado em uma belíssima ilha.

Mas vou contar-lhes uma história que aconteceu comigo e me deixou furioso na época. Eu cursava Direito na Universidade e, em uma noite, na hora do intervalo, apareceu uma colega que cursava letras, toda espevitada, xingando o professor por ter ousado passar para os alunos, em plena, aula um filme Europeu antigo. Ela dizia que nem o seu bisavô teria estômago para assitir.

E não é que o filme desgostado era o que elegi como o mais excelente de todos! De súbito, disparei contra-argumentando, tentando fazê-la entender a beleza de tão indispensável filme. Não obtive êxito. Ela nunca entenderia, pois ela já tinha um padrão de como deveriam ser os filmes em sua preguiçosa mente e não aceitava nada além dele.

Preciso confessar pessoal: sinto-me profundamente solitário ao ter que visitar uma locadora para escolher um filme para ser visto juntamente com um grupo de amigos. Geralmente é assim, mas existem valiosas exceções, há amigos que gostam de provar outras refeições.

Mas preciso ser justo, é claro que gosto dos filmes produzidos nos Estados Unidos, afinal, é a maior indústria de cinema do mundo. Sou um pouco americanizado, como todos nós "brazileiros".
O problema está na palavra "indústria", pois alguns filmes são feitos apenas para vender e não têm nada para oferecer além de explosões magníficas, sexo mal feito, estórias piegas e efeitos que não possuem nada de especiais.

Para estes que viveram até hoje tragando a mesma velha ração, está na hora de provarem outras refeições e perceberem que se tratam de verdadeiros banquetes intelectuais e sensoriais.

Para vocês corajosos, deixo uma bonita lista de filmes (não Estadunidenses) que, para mim, são essenciais. Para cinéfilos, poderão parecer obviedades, não me importo, pois não escrevo para especialistas, mas para pessoas que procuram banquetes no lugar da insossa ração habitual.

A Lista:
Obs: Abaixo de cada nome tem um atalho para você clicar se quiser saber mais sobre o filme.

Adeus, Lênin!
País de origem: Alemanha

Central do Brasil
País de origem: Brasil

Cinema Paradiso
País de origem: Itália
http://www.adorocinema.com/filmes/cinema-paradiso/cinema-paradiso.htm

Diários de Motocicleta
País de Origem: Argentina, Brasil, Chile, Perú e outros.
http://www.adorocinema.com/filmes/diarios-de-motocicleta/diarios-de-motocicleta.htm

O fabuloso destino de Amélie Poulain
País de Origem: França

A vida é Bela
País de Origem: Itália
http://www.adorocinema.com/filmes/vida-e-bela/vida-e-bela.asp

Bicho de Sete Cabeças
País de Origem: Brasil
Achados e Perdidos
País de Origem: Brasil



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Atualizado em 25/07/2008
Ouça o comentário de Arnaldo Jabor, sobre o mercado do cinema Brasileiro e sobre o filme "Nome Próprio", lançado recentemente no Brasil:

Arrumei uma Vitrola

domingo, 4 de maio de 2008

Ganhei uma vitrola do meu sogro, o Walter. Ela estava prestes a ser descartada em meio a uma faxina monumental, daquelas que só acontecem três ou quatro vezes na vida. Artigos de toda sorte eram jogados fora por serem inúteis para o nosso momento histórico.

Entre outras coisas, foi descartado:

Uma pilha de fitas de vídeo VHS emboloradas com o tempo; vários volumes de enciclopédias que antes serviram de pesquisas para tantos trabalhos escolares mas que agora tornaram-se enfadanhos e desatualizados; coleções de revistas das décadas de 70 e 80; um mimeógrafo; um projetor de eslaides e outras inovações do passado.

Eu salvei uma vitrola e uma quantidade de vinis tão grande que deu para encher uma caçamba de caminhonete. A maior parte tentei vender para os dois sebos da minha cidade, tentativa que logrou infrutífera, já que eles têm muitos vinis e pouca saída.
Para mim, salvei uma pilha razoável o bastante para causar desavença com a esposa no futuro, quando for eu o guardião de badulaques.

Eis alguns dos nomes que nutrem a gorda pilha pretérita:
- Secos e Molhados
- Chico Buarque
- Paulinho da viola
- Simon and Garfunkel
- Carlos Lyra
- Tom Jobim
- Bethânia
- Os grandes Festivais
- Taiguara
- Mutantes
- Dois na Bossa - Elis e Jair Rodrigues
- Geraldo Vandré
- Quinteto Armorial
- Elvis
- Ivan Lins (ainda barbudo)

Convenhamos, não dá para jogar no lixo tal acervo cultural. Seria um pecado digno de todos os suplícios da Idade Média, com direito a fogueira de inquisição.
Terminada a limpeza da insistente poeira dos tempos da ditadura, posicionei a vitrola com agulha nova (sim, ainda vende!), pronta para fazer cantar meus ídolos da música brasileira e mundial.

Rodei a primeira faixa do disco do Secos e Molhados.
Decepção.
Meu ouvido estava desacostumado com o som emaranhado e arenoso do vinil. Fazia mais de 10 anos que não ouvia um disco na vitrola (e olha que era assíduo deles na infância e ínício da adolescência).
É o legado da modernização. Ela roubou meu romantismo pelo vinil. Fiquei tão triste.

Sei que existem defensores ferrenhos do vinil ainda hoje; descobri que eu não sou um deles.
O CD é melhor, uma tecnologia superior. Isso não me impede de tocar meus discos na vitrola, ainda faço isso quase todos os dias, mas não sem pensar: "ah se eu tivesse esses discos em Cd..."

A última refeição

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Li na Veja dessa semana que fizeram uma pesquisa com Chefs de cozinha e perguntaram qual seria sua última refeição se fossem morrer logo em seguida. Por incrível que pareça, os Chefs escolheram pratos bastante simples, bem diferente das refeições elaboradas que fazem para os grandes restaurantes.
Parece que a memória do apetite não liga para o que é chique.
Fiquei pensando qual seria a miha última refeição.
A coisa é séria, pois, essa é uma decisão que os condenados à injeção letal nos Estados Unidos precisam tomar, e não é nada fácil.
A última precisa ser aquilo que mais gostamos, mas não pode ser comum demais, afinal, é a última e posso pedir qualquer coisa. Por outro lado, não pode ser refinado demais, pois minha memória pode me trair, uma vez que comemos pouco as comidas refinadas durante a vida. Só tenho uma chance, se não gostar, já era.
Acho que refeição predileta tem a ver com memória de infância, bons momentos em família. Tem a ver com deleites estomacais, empanturramentos na companhia de amigos. Tem a ver também com restaurantes exóticos, com self-service de beira de estrada e com petiscos de boteco.
Enquanto escrevo tendo decidir por meu último prato, mas estou mais dividido que coligação de político.

E você, consegue me dizer qual a sua última refeição? Prato principal, sobremesa e bebida?

Pense bem, depois disso você não vai mais poder comer. Não importa sua religião, se espírita, cristão, budista ou da seita ufológica do seguidores da costelação de Órion. Faça de conta que sua vida acaba depois da última garfada.

Bem, enfim cheguei a um denominador gastronômico.
Com dor e muita incerteza deixo a minha última refeição. Se um dia eu estiver preso numa prisão chinesa, condenado ao enforcamento por ter passado a mão na bunda da estátua de Mao Tsé-Tung, então vocês já saberão o que me dar:

  • Camarão na Moranga com Catupiri, acompanhado de arroz branco e salada de folhas, palmito, azeitonas e tomate seco.
  • Para beber, Chop encorpado
  • Sobremesa: Canjica da minha mãe, servida quente.