A Feira

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Um dia desses estava remexendo minha estante de livros, procurando alguma leitura que silenciasse a inquietação interior que me acomete de quando em quando. Geralmente eu pego um Neruda, ou um Vinícius. A poesia sempre me alimenta. Mas naquele dia minhas mãos foram de encontro a um pequeno livro que ganhei de presente de uma amiga há alguns anos.

O livro é uma coletânea de poesias e prosas do 1º Concurso Literário de Dourados. Ali, entre várias poesias que falavam da minha cidade, encontrei uma que me tocou profundamente. O Autor chama-se Aldair Lucas e o nome da poesia é “A Feira”.

Todo Sábado e Domingo acontece, em Dourados, uma Feira na rua Cuiabá, a maior feira de alimentos da cidade. A Feira recebe a visita de centenas de pessoas, que vão comprar o alimento para o almoço do final de semana em família. Outros vão apenas para aproveitar a feira, comer pastéis e outras guloseimas servidas nas barraquinhas dos Japoneses, ou mesmo passear com a família, o que já é muito gostoso.

Eu, particularmente, tenho uma forte ligação com a Feira da Cuiabá, porque, namorei uma garota que morava na rua da feira, bem no miolo. Naqueles três anos freqüentei a feira todo o final de semana, já que tinha que passar por ela para chegar na casa da namorada. Às vezes a feira era um estorvo: meninos pedindo um troco para cuidar o carro; dificuldade de chegar no meu destino, desviando das barracas e das pessoas; o cheiro forte de verduras e frutas passadas jogadas no chão. Mas, em outras vezes, era gratificante. Quando queríamos comer churros quentinho, ou Cuca feita na hora, era só atravessar a rua. E, na feira, eu fazia amizades e encontrava colegas que aproveitavam a tarde nas barraquinhas.

O namoro acabou, mas a Feira continua lá, perseverante. Guardo com saudades aqueles anos em que a Feira fazia parte da minha vida semanalmente.

A poesia da Feira me sensibilizou tanto, que entrei em contato com o escritor Aldair Lucas, para publicar sua poesia em meu site, pois, infelizmente, poucas pessoas têm acesso ao livro do Concurso.

Deliciem-se.
Tenho certeza que muitos de vocês vão querer visitar a Feira de sua Cidade.

A Feira

A Rua Cuiabá
É uma dessas ruas pacatas
Com gente aqui e acolá;
Correndo contra o tempo,
Na luta,
Pegando na batuta
Para o pão ganhar.
Mas no fim de semana
A rua é um ponto de convergência
Com urgência
O cidadão se esquece da vida,
Da luta sofrida,
Mesmo com canseira,
Pega a mulher e a prole
E vai para a feira.
Ah! É da feira que eu quero falar,
Gente de todo lugar,
Uns para fazer um bico
E não “pagar o mico”
De ver o pão faltar;
Outros que não querem nem saber,
Vão é festar.
Na barraca de Dona Ana
Pede-se um caldo de cana;
Na pastelaria do Bem Bom
Pedem: um de frango! Um de queijo!
Enquanto não sai,
Olha para a amada,
Tasca-lhe um beijo;
A molecada esfrega as mãos,
E com emoção dá a primeira mordida.
A feira não tem etnia,
E nesta via,
Tem gente de olhos puxados,
Outros de crânios achatados,
De ritmos mil,
De todos os cantos do Brasil.
A feira é uma miscelânea,
Uma coletânea de raças
Que com raça vencem o ardil.
Bem, a feira não é eterna,
E com uma voz terna
A esposa chama:
É hora de ir para a cama.
Que pena! Acabou.
Mas tem mais
No próximo final de semana!

Aldair Lucas é professor e escritor em Dourados-MS. Escreve sobre coisas da terra, priorizando o regional. Seus textos e poesias são indispensáveis!
Se quiserem ler mais textos do escritor Aldair Lucas entrem no site Recanto das Letras pelo endereço:
http://recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=27914

Benditas Entradas

segunda-feira, 9 de junho de 2008


Nem parece que já estou chegando na casa dos trinta. Tenho 27! Mas para mim nem parece. O tempo passa diferente dentro de nós. Olhamos os anos de forma diferente da contabilidade da folhinha. Dentro de nós a vida passa muito mais depressa.

O tempo voa. Por isso não parece que dentro desses quase trinta anos passaram-se aproximadamente 10.000 dias. Na verdade, parece até injusto, pois muitos desses dias passaram tão rápido que eu nem vi.

Trinta anos nas costas trazem alguns resultados para o corpo, mas um deles, em particular, é o motivo deste texto: as entradas.

Foi por volta dos 25 anos que comecei a notar os primeiros sinais das entradas. Situadas nos lados direito e esquerdo do alto da testa, onde antes serviram alguns bravos fios de cabelo, que deixaram seu posto por acharem que seu tempo de serviço era findo, as entradas são a marca inconfundível do tempo.

Eu sempre admirei cabelos com entradas quando era adolescente. Eu que fui geneticamente provido de uma substancial cabeleira, se não penteasse usando gel, ficava parecendo um Beatle loiro.

Eu achava que as entradas davam um equilíbrio ao penteado, um ar de ser humano experimentado. E isso também queria dizer ter namorado um número considerável de garotas, que naquela época correspondia a três.

Hoje fico satisfeito quando olho no espelho e vejo duas bonitas entradas. Dois presentes do tempo. Não tento esconde-las, mas as exibo orgulhoso. Pode ser que daqui a alguns anos elas passem a me preocupar. Por enquanto elas prestam um bom serviço, são auxiliares no processo de conscientização dos meus quase trinta, porque, até agora, sinto-me um menino.