O Carroceiro Melancólico

quarta-feira, 11 de março de 2009


Eu estava no meu escritório, em minha sala, quando ouvi um som de uma bola se esvaziando, Tchiiiiiiiii... Olhei pela janela que dá para a rua, e percebi que não era uma bola, mas um pneu furado, mais precisamente um pneu de carroça.

Não demorou muito para o carroceiro bater palmas na porta do escritório de advocacia, que funciona em uma casa alugada em um bairro tranquilo de Dourados, Mato Grosso do Sul. Ele queria saber se tinha problemas em deixar a carroça em frente à garagem enquanto ia até a borracharia mais próxima. Respondi que não tinha problemas, que poderíamos estacionar ao lado.

O carroceiro era um homem de pequena estatura, queimado do sol, braços torneados pela labuta diária e devia ter uns 60 anos, mas aparentava ter mais.

Perguntei se ele tinha um macaco. Respondeu que não, o que tinha ganhado de um cliente compadecido quebrou-se, gasto pelo tempo. Me ofereci para buscar um no carro, estacionado próximo ao local. O velho agradeceu com um sorriso tímido. Quando voltei, percebemos que a carroça era alta demais para o moderinho macaco usado nos carros populares de hoje.

Ele logo veio com uma solução. Foi buscar na casa em frente, um toco, daqueles usados para sentar e tomar tereré nas rodas de fim de semana.
Voltou com o toco nos braços. As veias saltadas nos antebraços demonstrava a longevidade laboral daquele carroceiro.

_ Quer que eu o ajude a levantar a carroça? Perguntei.

_ Não, pode deixá que eu me viro, se puder só empurrá o toco pra baixo, agradeço.

Acarroça estava carregada de entulhos e galhos de um trabalho em curso, mas mesmo assim não foi grande desafio para o carroceiro. Quando percebi, ele já tinha suspendido um dos lados da carroça e eu logo tratei de empurrar o macaco improvisado.

_ Qual o nome do Senhor? Perguntei.

_ José. Respondeu com simplicidade.

_ O Senhor está em boa forma! Exclamei.

_ É o trabalho duro, tenho 64 anos e quarenta de caroceiro. Quando comecei a trabaiá aqui era tudo mato. Tenho orgulho de ser um dos carroceiro mais antigo da cidade, e o mais caprichoso também. Não farta trabalho. É porque, quando a patroa pede pra eu fazê o frete, eu faço e limpo tudo direitim, melhor do que elas pediro. Disse ele com entusiasmo.

_ É, tem que levar o sustento para casa. Respondi, tentando jogar conversa fora.

_ É, mas infelizmente não tenho pra quem levá o sustento. Minha veínha morreu faz nove mêis.

_ Sinto muito seu José. Disse, tentando produzir uma cara que correspondesse com meu pesar descompromissado.

_ Minha Maria. Sinto tanta farta dela! Tento me aguarrá com Deus pra não entrá em depressão. Esses dia, rezei pra Deus deixá ela vir na nossa cama pra me dá só um beijo. E não é que ela veio! Mas os vizinho disse pra eu não pedi mais isso não, porque ela sofre, não consegue descansar.

_ Ela morreu de que? Indaguei.

_ O corpo dela foi ficando fraco. Primeiro o pulmão, depois o coração. No finalzinho, os médico tiveram até di cortá as duas pernas, na altura do joelho.
Falava gesticulando uma serra com as mãos, como se cortasse as próprias pernas.

Continuou.
_ Mais cê tinha que vê, era mais feliz que todos da casa, todo mundo admirava!
Mais não vô tomá mais o tempo do Sinhô, vo indo cuidá de arrumá esse pneu.

_ E como o Senhor vai até a borracharia?

_ Vou montado na morena. Disse, apontando para a égua amarronzada que comia a grama e as flores do jardim da vizinha.

Por um minuto pensei em me oferecer para levar o seu José e o pneu até a borracharia, em meu carro, mas a sujeira do pneu, cheio de barro, me desencorajou. Deixei ele ir na Morena, com a roda pesada no vão do braço esquerdo, montado no pelo.

Voltei à minha sala e sentei-me na cadeira confortável. A visão do seu José e da morena dobrando a esquina não me saia da cabeça. Fiquei imaginando ele, deitado em sua cama na noite que chegaria em breve, rezando para a Dona Maria lhe dar um último beijo.

6 comentários

Gabi disse...

História mto bonita; e q bom q eu tb conhecí o seu José e a Morena, hehe. Ele voltou aqui no escritório e lhe procurou, mas vc tinha saído para fazer algumas coisas para o pai na rua. Ele pediu para q eu agredecesse o moço q o tinha ajudado, e dizer q ele era mto bom e q Deus o abençoasse. Então está dito!

11 Março, 2009
Djalma Araújo Maciel disse...

C. S. Lewis disse: "Não nascemos para buscar a felicidade, nascemos
para Amar".

Então eu pondero:

Amar o próximo que está na estrada, talvez caído, talvez bêbado, talvez
convulsivo, talvez assaltado, talvez, apenas, trazendo a sua carroça...

Amar sem esperar algo em troca, estendendo a mão, jogando conversa
fora, trazendo um "macaco", empurrando um "toco", dando uma carona...

Amar cumprindo um ordenamento do Altíssimo.

Amar porque Deus é Amor.

Valeu meu brother.

Deus te abençoe

Djalma

11 Março, 2009
Ana Cláudia disse...

Muito bom.

Gosto da forma como escreve, nos leva para dentro da história, nos sentimos parte da cena, coisas que bons escritores conseguem fazer, estou sempre acompanhando as novidades do blog, seu conteúdo é muito bom.
Parabéns!!!

11 Março, 2009
miriam disse...

Emocionante, mesmo já tendo ouvido a história do "Seo" José fiz questão de ler...Exemplo de vida. Daria um livro.

13 Março, 2009
Raquel disse...

Que história linda, TUG...

Pra mim então, que estou vivendo um momento de melancolia, tocou profundamente.
Precisamos de mais homens como "Seu José", que amor mais puro, lindo, genuíno...

Precisamos aprender a valorizar as coisas e gestos simples da vida. Estou lendo um livro que fala de um amor profundo e descomplicado, tipo o do seu José pela Maria, um amor capaz de vivenciar "um beijo" mesmo quando as duas pessoas envolvidas não estão juntas no plano real...

Amar é simples! A gente é que complica.

Saudades de vc!!!!

19 Março, 2009
Eliane disse...

Gostaria de destacar um momento do seu texto, se me permite a audacia.

(...) produzir uma cara que correspondesse com meu pesar descompromissado.

As palavras nesta ordem me fizeram refletir sobre como me sinto em relaçao a dor do outro.

Muito boa a sua prosa "amigo poeta"!

08 Abril, 2009