Livros Furtados

quinta-feira, 12 de março de 2009

Volta e meia emprestamos livros que não são devolvidos. Por mais que supliquemos àquela pessoa no ato do empréstimo, que devolva no prazo combinado, às vezes isso não acontece.
Quando emprestamos livros é como se estivessemos entregando um pouco de nós mesmos. As pessoas que levam os livros que empresto, levam um pedaço de mim.

Eu não costumo ficar sentido quando um amigo ou uma amiga não devolve um livro meu. Eu sei que eles não esquecem, pois, na verdade, mantém o livro conscientemente.

Hoje eu estava querendo reler um livro do Paulo Freire que emprestei a uma amiga a uns quatro anos, meu coração doeu com saudade do livro, mas, por outro lado, juntamente com o livro a amiga levou a minha memória.

Acho que alguns livros são legítimos de serem furtados. São aqueles que nos impactam de tal forma que não conseguimos nos desvencilhar deles. Parece que o livro sabe disso, pois ele não quer regrassar para o antigo dono, ele quer ficar em trânsito. São aqueles livros que causam estupefação quando seus amigos o encontram na sua estante, e dizem: "você tem que me emprestar esse livro!". Quando isso acontece já sei que o livro dificilmente vai voltar.

Eu, por exemplo, peguei um "Neruda" emprestado, publicado em espanhol, um livro magnífico. Emprestei da minha amiga Elisa ainda na época da Universidade. Ela já me cobrou inúmeras vezes, mas não consigo devolver, e olha que já tentei. Coloquei o livro em cima do criado mudo para me lembrar, depois foi para cima da tv, para onde olho sempre, mas uma força inexplicável me compele a reter o livro, como se fosse um refém. Um fato que me deixa mais tranquilo é que acho que a Elisa furtou aquele "Neruda" de outra pessoa, pois a dedicatória não é destinada a ela e as anotações não têm letra de mulher.

Veja a que ponto chega a problemática dos furtos de livros. Minha namorada, a quem vejo quase todos os dias, me furtou um "Rubem Alves", entitulado "o amor que acende a lua". Ficou tão maravilhada com o livro que teve a "caruda" de furtar do próprio namorado. Já supliquei mil vezes a devolução, mas não obtive sucesso. Chega ao ponto dela esconder o livro quando vou namorar na casa dela, pode isso?
De fato, não posso reclamar, o bom livro têm vida própria e não segue as regras da fidelidade.

O Carroceiro Melancólico

quarta-feira, 11 de março de 2009


Eu estava no meu escritório, em minha sala, quando ouvi um som de uma bola se esvaziando, Tchiiiiiiiii... Olhei pela janela que dá para a rua, e percebi que não era uma bola, mas um pneu furado, mais precisamente um pneu de carroça.

Não demorou muito para o carroceiro bater palmas na porta do escritório de advocacia, que funciona em uma casa alugada em um bairro tranquilo de Dourados, Mato Grosso do Sul. Ele queria saber se tinha problemas em deixar a carroça em frente à garagem enquanto ia até a borracharia mais próxima. Respondi que não tinha problemas, que poderíamos estacionar ao lado.

O carroceiro era um homem de pequena estatura, queimado do sol, braços torneados pela labuta diária e devia ter uns 60 anos, mas aparentava ter mais.

Perguntei se ele tinha um macaco. Respondeu que não, o que tinha ganhado de um cliente compadecido quebrou-se, gasto pelo tempo. Me ofereci para buscar um no carro, estacionado próximo ao local. O velho agradeceu com um sorriso tímido. Quando voltei, percebemos que a carroça era alta demais para o moderinho macaco usado nos carros populares de hoje.

Ele logo veio com uma solução. Foi buscar na casa em frente, um toco, daqueles usados para sentar e tomar tereré nas rodas de fim de semana.
Voltou com o toco nos braços. As veias saltadas nos antebraços demonstrava a longevidade laboral daquele carroceiro.

_ Quer que eu o ajude a levantar a carroça? Perguntei.

_ Não, pode deixá que eu me viro, se puder só empurrá o toco pra baixo, agradeço.

Acarroça estava carregada de entulhos e galhos de um trabalho em curso, mas mesmo assim não foi grande desafio para o carroceiro. Quando percebi, ele já tinha suspendido um dos lados da carroça e eu logo tratei de empurrar o macaco improvisado.

_ Qual o nome do Senhor? Perguntei.

_ José. Respondeu com simplicidade.

_ O Senhor está em boa forma! Exclamei.

_ É o trabalho duro, tenho 64 anos e quarenta de caroceiro. Quando comecei a trabaiá aqui era tudo mato. Tenho orgulho de ser um dos carroceiro mais antigo da cidade, e o mais caprichoso também. Não farta trabalho. É porque, quando a patroa pede pra eu fazê o frete, eu faço e limpo tudo direitim, melhor do que elas pediro. Disse ele com entusiasmo.

_ É, tem que levar o sustento para casa. Respondi, tentando jogar conversa fora.

_ É, mas infelizmente não tenho pra quem levá o sustento. Minha veínha morreu faz nove mêis.

_ Sinto muito seu José. Disse, tentando produzir uma cara que correspondesse com meu pesar descompromissado.

_ Minha Maria. Sinto tanta farta dela! Tento me aguarrá com Deus pra não entrá em depressão. Esses dia, rezei pra Deus deixá ela vir na nossa cama pra me dá só um beijo. E não é que ela veio! Mas os vizinho disse pra eu não pedi mais isso não, porque ela sofre, não consegue descansar.

_ Ela morreu de que? Indaguei.

_ O corpo dela foi ficando fraco. Primeiro o pulmão, depois o coração. No finalzinho, os médico tiveram até di cortá as duas pernas, na altura do joelho.
Falava gesticulando uma serra com as mãos, como se cortasse as próprias pernas.

Continuou.
_ Mais cê tinha que vê, era mais feliz que todos da casa, todo mundo admirava!
Mais não vô tomá mais o tempo do Sinhô, vo indo cuidá de arrumá esse pneu.

_ E como o Senhor vai até a borracharia?

_ Vou montado na morena. Disse, apontando para a égua amarronzada que comia a grama e as flores do jardim da vizinha.

Por um minuto pensei em me oferecer para levar o seu José e o pneu até a borracharia, em meu carro, mas a sujeira do pneu, cheio de barro, me desencorajou. Deixei ele ir na Morena, com a roda pesada no vão do braço esquerdo, montado no pelo.

Voltei à minha sala e sentei-me na cadeira confortável. A visão do seu José e da morena dobrando a esquina não me saia da cabeça. Fiquei imaginando ele, deitado em sua cama na noite que chegaria em breve, rezando para a Dona Maria lhe dar um último beijo.

“As Universides das Modelos”

segunda-feira, 9 de março de 2009


Em Dourados, Mato Grosso do Sul, existe uma Universidade que espalhou vários outdoors pela cidade para fazer propaganda de seu vestibular. Neles figura uma modelo brasileira muito famosa e bonita. Sempre que passo em frente a um desses outdorrs olho para a foto da modelo, ao lado da publicidade do vestibular, e penso: “realmente essa mulher é muito bonita”, e sigo meu caminho.

Acontece que, hoje parei para pensar no sentido daquela modelo na divulgação de uma Universidade. Cheguei a conclusão que não faz sentido nenhum! As modelos, com seus corpos perfeitos e rostos deslumbrantes, servem para tornar o produto ainda mais apresentável. Roupas, colares, carros e muitas outras coisas. Mas, as Universidades são lugares para a obtenção do conhecimento. É nelas que os alunos ingressam em busca de uma formação, com o intuito de conseguir uma melhor colocação no mercado de trabalho.

Mas eu pergunto a vocês, porque a Universidade escolheu logo uma pessoa cuja profissão não exige diploma universitário? Eu reconheço que a profissão de modelo é uma profissão séria e muito estafante. Para ser modelo a mulher precisa abrir mão da adolescência e da vida em família. Uma modelo tem uma agenda tumultuada, trabalha até altas horas e têm uma curta carreira, pois, depois de certa idade não recebem tantas ofertas de trabalho como quando eram novas.

No entanto, estamos falando de uma Universidade. Por exemplo, por mais que eu considere o Lula um bom presidente, não faria vestibular em uma Universidade onde ele seria o garoto propaganda.

Isso tudo me fez refletir em como a maioria das Universidades tornaram-se apenas negócios. A prova disso é como tentam vender seu produto como se fosse latinhas de cerveja, usando a mulher bonita e gostosa como garota propaganda. O ensino nessas academias, geralmente, é ruim e nós nos sujeitamos a isso, pois necessitamos do diploma. Outro motivo é que as boas faculdades públicas não têm vagas suficientes e muitas delas estão em grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Para a maioria dos Douradenses é inviável sair da cidade e deixar emprego e moradia com a família.

Eu, sinceramente, não vejo melhores horizontes para o ensino nas Universidade, uma vez que, até mesmo o Governo, em sua reforma universitária, preferiu o caminho mais fácil, que é pagar vagas nas universidades das “garotas propagandas Modelos”, no lugar de construir melhores pólos Universitários, garantindo mais vagas em boas Universidades. Não sei se estas Universidades formarão bons profissionais, mas com certeza farão ótimos marqueteiros e destes, não sei se precisamos em tão grande número.